Aprendi que só podemos SER aquilo que trazemos na bagagem ao longo do aprendizado da vida, mas parto do princípio que todas as coisas e situações se transformam de acordo com as lições aprendidas. Eu não posso mudar o que fui, mas posso mudar quem quero ser. Quero que meus netos me vejam por dentro, com todos os meus defeitos e qualidades e sobretudo que saibam apreciar o exemplo que tentarei passar para eles e me esforçando para ser um pouco melhor a cada dia que passar. Gostaria de ser uma avó presente no cotidiano, mas sei que isso é praticamente impossível, pois cada família tem sua rotina e todos tem uma vida a viver, mas tentarei estar junto nos principais momentos, ou nas datas importantes, quando as circunstâncias permitirem, querendo lembrar aqui que: “nem toda distância é ausência e nem todo silêncio é esquecimento”…

Quero ter tempo prazeiroso para dividir com eles, como ler livros, contar estórias (isso eu tenho que aprender rsrsrs), tomar banho de rio, de mar, ir ao shopping, ensinar a mexer com a terra, admirar os animais e a natureza de uma forma ampla. E finalmente, acompanhá-los no mundo da informática e tecnologia, que não sou boba nem nada… 😀

Quero estar um pouco mais na frente que no tempo em que criei meus filhos, com heranças dos meus pais e meus avós, que foram aprendizados úteis, mas agora com nova roupagem. Tenho mais lembranças da minha avó materna, pois foi com quem convivi mais e dela quero ter a firmeza, a paciência e a generosidade, mas excluir o “carrancismo” em determinadas atitudes.

experiencia3

Ser avó, não tem preço…

Algumas lembranças  que me vieram a mente da minha meninice e adolescência: Minha mãe, que até me ensinou a costurar, pois ela era uma modista excelente, com moldes de como cortar uma calça, um vestido. Lembro que até cheguei a fazer um para uma afilhada e tempos depois essas aulas me ajudaram a confeccionar cortinas e colchas para o quarto das minhas filhas, mas ficou somente nisso, nunca mais fiz mais nada…   😀

Minha avó materna, Filó (Florina, que na realidade era tia da minha mãe que a criou desde bebê, depois da morte da sua mãe) me ensinou a fazer crochê e a bordar, o crochê eu até ainda sei fazer, mas bordar, não me identifiquei. Vó Filó, tinha o cabelo todo branquinho, longo, mas sempre enrolado com um coque preso com grampos, vivia a costurar suas rendas de bilros, que fazia com maestria (numa ligeireza de dar inveja). Eu ficava horas e horas impressionada como ela não errava nenhum buraquinho daquela cartela onde tinha os desenhos, onde ela espetava o alfinete seguindo o desenho do riscado. Os bilros, parece até que estou vendo, faziam um barulhinho caracterísitico quando eram jogados de um lado para o outro, eram lindas rendas, ela vendia aos metros para as costureiras. Tinha um hábito também de fumar à noite, antes de dormir, também era a única vez durante o dia (fumo de rolo, que ela comprava na feira do Conde todos os sábados). Mas depois das sua baforadas, escovava os dentes de uma maneira muito interessante, usava um pedaço de caule da folha de uma palmeira (que já esqueci o nome) e ia tomar o banho. Colocava talco e ia dormir toda cheirosa, quase sentada em um monte de travesseiros, pois tinha asma e isso a ajudava a respirar melhor. Muitas vezes dormi com ela. Era ela quem me dava apoio quando não me sentia bem, quando estava triste ou estava doente, tinha sempre um chá pronto para tudo e um mingauzinho! E a velha chaleira, lembro muito bem, ela sempre conservava em cima do fogão de lenha e tinha um bule de esmalte verde também, com um coador sempre na parede para o café da tarde, ela adorava um café bem forte e preto, nada de leite! Água no filtro de barro.  Lembro também que tinha uma bacia grande, feita de madeira, chamada “gamela” (o nome é devido a madeira utilizada ser da árvore gameleira, por ser uma madeira macia e leve), a dela era bem rústica! Nos dias atuais não se vê mais esse tipo de coisa!  Ela morreu com quase 100 anos e meus filhos ainda tiveram a sorte de conhecê-la!

almofadagrande bilro

Almofada de rendas de bilros

Vo Filo2

Minha Avó/tia materna Florina, popularmente Filó – também já falecida. (Trisavó/tia de Arthur)

Já meu avô materno, Horácio Ferreira Batista, as lembranças são as das suas histórias “de medo”, que nós netos ouvíamos fascinados, com os olhos arregalados, sentados na varanda da casa da fazenda. Histórias que , segundo ele, aconteceram  mesmo. Histórias que envolviam alguém que virava lobisomem, de pessoas que ele disse que conhecia e que se transformavam em mulas sem cabeça, dos compadres e comadres que brigavam e quando morriam viravam fogo fátuo!! Depois que acabava de contar tinha que responder aos nossos inúmeros questionamentos, que povoavam a nossa mente, ele inventava as respostas e quando não queria mais responder nos mandava dormir. Acho que todo mundo, da minha faixa etária, deve ter histórias semelhantes dos avós. 🙂

Meu avô materno, Horário Ferreira Batista (Trisavô de Arthur)

Dos meus avós paternos, pouca coisa eu lembro, principalmente do meu avô Costa, por ele já não vivia com a minha avó (Dina) desde que eu era muito pequena. Eles eram desquitados (naquele tempo não existia divórcio ainda). Encontrei com ele raras vezes, tinha os olhos de um azul cristalino e ele era muito bonito, mas o visitei nos seus últimos momentos de vida, num leito de hospital. A minha avó Dina era muito vaidosa, gostava de tingir o cabelo (naquela época chamava-se hennè, acho que depois virou henna) e viajava muito também para o sul da Bahia, para a casa da irmã, depois que os pais dela morreu. Tinha descendência indígena. Ela não era muito apegada com os netos, mas de uma coisa eu lembro, ela começou a me ensinar a fazer tricô, só que eu não me interessei, depois que comecei a fazer crochê. Ela era professora e às vezes dava aulas em casa. Eu também estive presente na ocasião da morte dela, onde fiquei revezando com Jaci, minha prima, ao lado da mesma. Morreu de aneurisma cerebral, em Conde, Bahia.

meus avós

Meus avós paternos, já falecidos. Avô Epifânio Georgino da Costa e Avó Andrelina Anunciação Costa, popularmente Vó Dina (Trisavôs de Arthur)

Claro, que para os meus netos, no futuro eles vão lembrar de coisas bastantes diversas do que eu vivenciei, mas gostaria que eles aprendessem e lembrassem de um tempo em que obediência aos pais e respeito aos mais velhos era o trivial variado.

Quero tentar ser uma avó presente, mas não invasiva. Acho que os avós podem ser conselheiros, educadores e um conforto em momentos difíceis.